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O poder local democrático,
instituído há 30 anos, foi consequência directa da revolução de Abril de 74 e, inegavelmente,
um dos marcos mais importantes para a consolidação do estado democrático no
nosso país. Com a queda do regime fascista e a instauração da democracia, este
foi um dos grandes sonhos do povo português que consistia em ser ele próprio, o
povo, a escolher os seus legítimos representantes para as autarquias locais,
direito que nos tinha sido vedado até então.
Muito havia por fazer, era
preciso arregaçar as mangas, apagar o passado e olhar o futuro com confiança e
determinação. Era gigantesca a tarefa que os autarcas tinham pela frente,
começando pelas as necessidades mais básicas das populações, tais como o abastecimento
de água domiciliária, saneamento básico, electrificações, vias de comunicação,
entre outras.
Os autarcas democraticamente
eleitos em 12 de Dezembro de 1976, conhecendo as carências dos seus concelhos,
meteram mãos á obra e começaram a mudar a face do país. Em muitos casos
substituindo-se inclusivamente aos governos em matérias que são da sua
responsabilidade. Hoje, passados trinta anos de poder local democrático, não
obstante as lacunas que ainda existam e o muito que há por fazer, o balanço é sem
margem para dúvidas extremamente positivo, apesar das dificuldades e limitações
impostas pelo poder central e que são, muitas vezes, um entrave ao
desenvolvimento de muitos municípios, sobretudo os do interior e das regiões
mais desfavorecidas como é o caso concreto da maioria dos municípios do
Alentejo.
As autarquias, por si só, pouco
podem fazer para contrariar a politica centralista do governo. Por isso mesmo
vale a pena lembrar que a regionalização não pode ser de modo algum uma luta
esquecida – e torna-se cada vez mais urgente que este tema volte à agenda
politica para que, a exemplo das autarquias, o povo possa escolher os seus
representantes regionais, em vez de ter os governadores civis que mais não são
do que servos, ou seja, os “sim senhor,” do poder central.
Quero realçar os trinta anos do
Sr. Presidente Fernando Careiros à frente do concelho de Castro Verde que tem
merecido, nos vários actos eleitorais, a confiança da esmagadora maioria do
eleitorado. Mesmo assumindo aqui que entre nós existem naturais diferenças de
opinião em relação a determinadas matérias, não posso deixar de reconhecer que
o trabalho que tem desenvolvido em prol nosso concelho é globalmente positivo:
não deixou que o nome de Castro Verde fosse notícia pelos piores motivos e que
manchassem a sua governação; não há conhecimento que alguma vez estivesse sob
suspeita em actos menos sérios de fraudes ou de corrupção, como hoje acontece,
lamentavelmente, em muitos municípios do país. Sendo este naturalmente um
motivo de orgulho e satisfação para todos os Castrenses!
Mas, Sr. Presidente, se o Bloco
de Esquerda tivesse poder de decisão faríamos algumas coisas de maneira bem
diferente, começando desde logo pelo aprofundamento da democracia e, em vez de
uma democracia apenas representativa, optaríamos claramente pela democracia
mais participada, onde os cidadãos tivessem mais direito à palavra, onde
pudessem dizer o que pensam sobre quais as prioridades para o local onde vivem,
através de um orçamento participativo. Com uma fatia do bolo do orçamento
destinada para esse efeito, os cidadãos seriam chamados para se pronunciar em
questões de grande importância para a vida do nosso concelho – como, por
exemplo, a decisão de Castro Verde fazer parte de uma empresa inter municipal
com 49% de capital privado para a gestão da água.
Do nosso ponto de vista, a água é
um bem público que não deve ser mercantilizado como qualquer outra mercadoria e
que, a exemplo da saúde pública, não pode servir para negócio de empresas
privadas. A breve prazo se fará sentir nos bolsos e na qualidade dos serviços
ao consumidor o erro político dessa decisão porque, obviamente, as empresas
privadas não são vocacionadas para servir o povo mas sim para se servir dele. O
povo teria uma palavra a dizer neste e noutros casos porque a participação dos
cidadãos não se esgota no acto do voto!
Vemos o futuro com alguma
preocupação, tendo em conta o crescente despovoamento das aldeias do interior e
que, como consequência, já levou ao fecho de algumas escolas do concelho de Castro
Verde – e outras certamente irão seguir-se. Não basta identificar as causas, é
urgente que se adoptem políticas que evitem que este fenómeno continue a
crescer.
Quero deixar aqui como
recomendação ao executivo que invista numa boa rede viária, de forma a melhorar
as acessibilidades ás populações das outras freguesias. E que se encontre com
os proprietários de casas devolutas ou degradas para procurar um entendimento
no sentido de tornar viável a recuperação e posterior arrendamento a preços
baixos e controlados dessas habitações, assim como a criação de loteamentos
para habitação com preços fixos igualmente baixos, ao contrário do que acontece
na sede de concelho, onde um lote de terreno é vendido na modalidade de carta
fechada – “quem dá mais” – atingindo preços elevadíssimos!
Se forem seguidas as recomendações que aqui
fazemos, acompanhadas de políticas descentralizadoras, estamos convictos que
parte deste problema será resolvido porque se abrem novas oportunidades para
que as pessoas possam viver melhor na sua terra!
Quero dar conta da total
disponibilidade do Bloco de Esquerda, em conjunto com o executivo e as demais
forças políticas aqui representadas, para debater e encontrar respostas para um
problema e preocupação que é certamente comum a todos nós.
Para finalizar, quero saudar os
autarcas eleitos para os vários órgãos do nosso município ao longo destes
trinta anos e, sem querer ser injusto para todos os outros, quero destacar um
homem a quem Castro Verde muito deve, por ter dedicado grande parte da sua vida
a este concelho nos vários cargos que ocupou e exerceu com sabedoria e
empenhamento, assim como na qualidade de cidadão se envolveu em varias acções
cívicas contribuindo para o engrandecimento das colectividades que fez parte e
dirigiu. Um homem bom, honesto e de uma grande generosidade, que hoje temos a
honra de ver presidir a esta sessão solene.
Refiro-me, naturalmente, ao Sr.
Manuel Marques a quem, com toda a amizade, deixo o meu abraço e o
reconhecimento do núcleo concelhio do Bloco de Esquerda de Castro verde.
O deputado municipal do bloco de Esquerda
Adelino coelho
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